domingo, 18 de novembro de 2007

Dormitório



«Somos demasiados.» - barafustava um homem desconsolado, agarrado ao varão do autocarro. Estava completo. Não cabia mais ninguém.
E entre curvas apertadas em que sentíamos as rodas de um dos lados levantar, sentava-se no meu colo, aflita. Desculpava-se estrategicamente explícita.
A luz falhava. A luz intermitente falhava no túnel.
Eu olhava em volta. Devolviam-me o olhar faces rubras, gastas, exaustas.
Sempre me causaram impressão, os carros harmónio, elásticos. Caudas com vontade própria, que se sacodem de encontro à réplica.
Um miúdo. Um carteirista. Uma grávida. Jogam os três cartas.
Seguem divorciados de qualquer conversa de ocasião.
Não está frio, não está cheio, não há chuva, os jornais nada dizem.
Agarrem-se.

1 comentário:

Clem disse...

Eu sempre gostei de me transportar nesse harmónio, com um pé do lado e outro do outro, a desafiar o equilíbrio nas curvas.