segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Heart of the Country



Ele voltou a roer os dedos. Salivou e voltou a descarnar. Estava visivelmente perturbado.
Não me disse a que assistiu. Também não perguntei.
Escorriam lágrimas.
Abanei-o, mas só arrancava soluços.
-«O que foi? O que tens?»
Então, a tremer, foi desenrolando o embrulho.

Escurecia à beira-rio e eu só tinha vontade de me atirar do varandim e estatelar-me no passeio. Os vizinhos ouviam religiosamente o que tinha a dizer o protagonista da maior das novelas.
-«Arruma o teu quarto! Aquele que tem pistolas e lâminas de barba por cima de pequenos montes de farinha!»
Fico distante, praticamente alheio às baboseiras televisivas. Tento encontrar-me depois de ter sido sacudido pelo horror naquela tarde. Percebo agora porque estava o Miguel em estado de choque.

Sou um cão. Qualquer comichão na orelha, satisfaço com a ajuda de uma das patas traseiras. E lá vou eu, a trote, a snifar o que resta dos passeios nesta cidade que me esventrou a mãe. Se tenho fome, abro o coração.
É à chuva e ao frio que me lembro dela.
-«Eras disponível, doce, Mãe. Ainda eu não abria os olhos e já te sabia linda.»

Posto dos Correios.
11h24

Envio bem sucedido.
1 Volume
Conteúdo: um susto, um braço, um latido.

3 comentários:

Clem disse...

http://queoraessa.blogspot.com/2007/12/blog-post.html


:)

Cpt Scarlet disse...

Credo Clem! Visceral.
Sangue no asfalto...a reificação de um Ser. Não vou cansar de ficar atordoado com o horror. Sou um medricas.

Clem disse...

Hei-de trabalha-lo para ser mais terrível ainda.

Medricas, as pessoas que levam a dor a sério. :)